Monday, January 08, 2007

Na bancada do marceneiro com

AVA GINA FONDA

Lésbica crítica


Vocês sabem o que é handyman? É uma expressão em inglês que identifica o homem faz tudo, aquele cara que vai na sua casa mostrar o cofrinho e consertar encanamento, fiação elétrica, buraco de prego com massa corrida, pintar parede, desentupir a duchinha e tirar cabelo do ralo*. Sabe?

Pois é, se o cofrinho do handyman estiver acompanhado de um abdome de tanquinho, bunda dura, coxas de aço, tórax definido e poucos pelos, a gente chega até a pensar se a nossa doença não é realmente mais que uma doença, mas uma maldição. Uma vez eu cheguei até a namorar um rapaz porque ele consertou o cano da pia da cozinha lá de casa. Durou seis meses, mas aí eu entupi e não quis mais**.

Mas estou me desviando do assunto. Eu queria falar era da Handywoman.

Handywoman é parecido com aquilo que já foi mencionado por aí, em algum blog, bar ou balada, como a Amiga Bosch. Mas é mais do que alguém que tem ferramentas. É mais do que alguém que pendura quadros. É muito mais do que alguém que veste uma pochete de couro com um martelo pendurado.

Handywoman é alguém que sabe a diferença entre chave de fenda e chave philips. Alguém que sabe que existe uma ferramenta no mundo capaz de parafusar algo sem você fazer esforço. Alguém que sabe usar um nível daqueles com uma bolhinha no mercúrio. Alguém que sabe fazer prateleiras retas, que consegue fazer furos precisos e que coincidem com os buracos da mão francesa***, que serra sem deixar farpas e que pinta sem deixar manchas. Alguém que troca a resistência do chuveiro, o reator da luminária, o miolo da tomada, o joelho do cano e que passeia numa loja de ferragens como aquele ar de quem sabe o que fazer com tudo aquilo.

Ai, vou gozar!

Pois é, nesse fim de semana o tempo andava devagar e eu só esperava pela estréia da 4ª temporada do L Word, lendo um policial da série Micky Knight****, quando Anne Carole passa pela sala decidida, me pega pelos cabelos da nuca e fala:

“Vamos na Leroy Merlin”.

Confesso que ali já senti meu pulso deslocar para baixo, e quando eu falo pulso***** não é a parte do corpo.

Enquanto ela andava pelos corredores infestados de ferramentas eu empurrava o carrinho, lixava as unhas, olhava de canto e me sentia estranhamente faminta. Já tinha até esquecido do L Word.

Cada item que ela comprava despertava mais o meu interesse. Lixas. Latas de tinta. Chaves de boca, hm. Prendedores de mamilo, quer dizer, braçadeiras. Lixadeiras. Jacarés. Limas. Grosas. Porcas. Parafusos. Parafusos enormes. Parafusos gigantes! Soldas! Brochas! BROCHAS!!!!! NUNCA PENSEI QUE FICARIA COM TESÃO NUMA BROCHA!!!!

Eu queria apressar as coisas, afinal, já estava desidratando de tanto perder líquido, mas naquele momento eu senti que devia respeito ao meu marido. Empurrei pacientemente o carrinho e me comportei como uma desperate housewife durante o tempo todo.

Chegando em casa, esperei que minha Handywoman terminasse o seu trabalho mas quando vi aquele cofrinho à mostra não me contive. Me joguei na bancada com minha roupa de tachinhas e pedi a Anne Carole que me desparafusasse com a chave de boca e depois me consertasse com sua coleção de brocas.

E LEMBRE-SE MENINAS: às vezes no backstage tem muito mais ação do que ali na frente.


* Não, cabelo do ralo não dá, é demais.
** Mentira, eu levei um pé na bunda de uma pessoa do sexo masculino, foi quase humilhante, se não fosse excitante.
*** Você acha que alguém que sabe o que é mão francesa deveria se casar com alguém que sabe o que é unha francesinha?
**** Private Butch Detective, da autora J M Redmann.
***** Pulso (sic) como pulsação, aquela coisa latejante, que as vezes a gente sente no pulso, as vezes em outras dobras.

Tuesday, October 10, 2006

No set com


AVA GINA FONDA


Lésbica crítica.


Não consigo escrever direito porque estou trêmula, ofegante e vazando até agora.

No domingo, começo da tarde, peguei Anne Carole pela correntinha do mamilo e fomos ver Black Dahlia.

Queridas amigas, eu nem sei direito o que acontece no filme.

Só sei que tudo começa com o Josh Hartnet, que é o marido que toda a mulher que escolhe como eu gostaria de ter em casa, revezando com a Daniela Sea. Ele é bem lisinho.

Mas quando a gente acha que vai se contentar com ele mesmo, entra em cena a loira iceberg do século, Scarlet Johanson, que só pelo fato de ter esse nome nem precisava ser bonita, mas é. E desfila de lingerie anos 40.

Já é satisfatório, mas ainda é pouco temático para quem viveu tantas experiências como eu, sabe como é, a gente fica complacente e precisa aprofundar.

Então o filme mais uma vez não desaponta, joga e esfrega na nossa cara a duas vezes vencedora do oscar da academia em papéis masculinizados, Hilary Swank, linda, pálida, magra, musculosa, bem vadia, num papel sexualmente ambíguo, má, fumante e de vestido justo.

Neste momento eu fiquei tensa, puxei a correntinha com muita força e fiquei com o mamilo de Anne Carole na mão, o que foi ótimo, pois pude usá-lo mais confortavel e discretamente para propósitos excusos, ao mesmo tempo em que dizia em seu ouvido, “Anne, hoje você vai ter que correr o Iron Man entre lençóis de cetim, depois ainda fazer uma performance de salto triplo com vara.”

Só que não pára por aí. Quando aparece a Black Dahlia é que a coisa pega. Ninguém menos do que Mia Kirschner. A Jenny, do L word. Para quem não entende muito bem, basta dizer que Jenny e Max fazem parte da mesma fantasia.

Mia faz o papel de uma adolescente que não vale uma cachaça, quer ser atriz na Hollywood dos anos 40 e topa qualquer coisa para conseguir. Qualquer coisa mesmo. Inclusive fazer filme pornô lésbico, com direito a dildo e tudo. Gente, a essa altura eu já tava mastigando o mamilo da Anne Carole e implorando que ela mastigasse o meu.

O filme tem uma trama policial interessante. E mais interessante ainda é a direção de Brian de Palma. Ele tira sarro sutilmente, tanto que a maioria nem percebe a paródia. Direção de arte ótima, figurinos ótimos. Toda aquela aura dos anos 40 que eu adoro, chiquérrima e decadente... Acho que nasci com 30 anos de atraso.

E tem o lado homossexual da coisa, claro. Algumas cenas se passam dentro de bares lésbicos da época, mulheres vestidas elegantemente de homem, outras femininas coqueteando com suas piteiras, aquele clima de low life e bebida contrabandeada e k.d. lang de smoking cantando cercada de coristas...

Foi quando eu colei o mamilo mastigado debaixo do braço da poltrona do cinema, pulei em cima de Anne Carole e sussurrei em seu ouvido já babado, “chega de lei seca, meu bem, quero fazer uma cena agora e quero figurantes”.

Ali mesmo, organizamos uma orgia contando com a participação das duas últimas fileiras da sala de projeção. Todo mundo gostou, mas a gente perdeu uns detalhes do filme. Não faz mal. Depois de gritar umas 4 vezes, fiquei deitada no colo de Anne Carole enrolando seus pelos do peito e pensando, “acho que alguém derrubou pipoca dentro de mim”.

Nada como um feliz domingo no cinema.

Cotação:
3 dedadas para o roteiro
69 dedadas para o elenco, rápidas e profundas.

E LEMBREM-SE GAROTAS, NEM SEMPRE É PRECISO ESCOLHER PAPÉIS: SE ELA TE CHAMAR DE OSCAR, MOSTRE SUA PALMA DE OURO.

Tuesday, October 03, 2006

No set com

AVA GINA FONDA

Lésbica crítica, inclusive de cinema.


Nos anos 50, eram os rebeldes sem causa protagonizados por James Dean e Marlon Brando. Nos anos 60 e 70, era James Bond. Mas quem passou a pré-adolescência nos anos 80, sabe que nossos sonhos eram embalados por outros personagens.

Jason, Freddy e Michael Myers.

Claro, tinha também o Miami Vice original, com o Don Johnson. Mas já naquela época os blazers brancos com mangas dobradas me assustavam mais que um machado, uma serra elétrica ou um homem de unhas compridas.

Tudo isso para dizer que, graças a isso, muita gente da minha idade, acabou pegando gosto por sangue.

Calma, suas pervertidas orgânicas, não tem nada a ver com defloração oral ou sexo no período.

Mas a situação tem.

É que Anne Carole de la Gorge, minha sparkling female slave husband, tava exatamente como citado acima, no período, com o boi, com o chico, menstruada, bleeding like na elephant, pra ser bem gráfica na descrição, e eu, apesar de ter nascido no sul, não como picanha mal-passada.

Daí falei, “amor” – porque só chamo Anne Carole de amor quando não vai ter sexo – eu disse “amor, vamos ver um filminho de sacanagem sem sexo”.

Anne Carole apareceu na minha frente com um macacão engraxado, uma máscara branca furadinha, uma faca eeeennnoooorrrmmmeee (quase tão grande quanto a fivela do cinto dela, compreende?) numa mão, e um DVD na outra. Usou a faca pra cortar o plastiquinho da embalagem e colocou o DVD pra gente.

Haute Tension.

Um filme francês de sacanagem sem sexo: o cara sacaneia um com uma serra elétrica, outro com um machado, as crianças com uma espingarda e a mocinha com uma navalha. Tipo sangue pra todo lado numa casa de campo. Tipo rios de sangue. Tipo mais sangue que no modess da Anne Carole quando ela faz abdominais no segundo dia.

Mas a história até que é absorvente.

Duas amigas de faculdade, uma apaixonada pela outra, a outra nem tchuns, mas elas vão passar o fim de semana juntas no campo, estudando. Quando o maníaco ataca (claro que tem um maníaco, ora) a garota mais macha, de cabelo curto e apaixonada faz de tudo para salvar o amor da sua vida das mãos do psicopata e de suas lâminas.

Não fosse francês, teria se transformado num clássico do gênero. A produção é legalzinha, do Luc Besson, entre outros. E o final é surpreendente!

Fora que nos mostra uma linda mensagem, mostrando ao mundo que o amor lésbico não tem fronteiras, limites e está além da vida. Muito bonito mesmo.

No final, queria apanhar mas fiquei com medo de Anne Carole vestida daquele jeito e pedindo que eu a chamasse de Jason. Mas enfim, para quem já passou por queimaduras de cigarro, choques, nós de marinheiro, cordões de uvas, clips nos mamilos e mpb, o que é uma facadinha no ombro?

Fora que o Jason nunca morre, né? Ele sempre volta à vida pra te comer de novo. Aguardem para breve o lançamento do nosso novo amateur film, “Sexta-feira 13, parte 69”.

E LEMBREM-SE GAROTAS, filme de horror, mas de horror mesmo, mesmo são aqueles excessivamente românticos.

Wednesday, September 20, 2006

na california com

AVA GINA FONDA

lésbica crítica


Conheci Anne Carole nos loucos anos 90, na não menos louca San Francisco.

Encontrei-a quando procurava um loft no SoMa pra alugar. Eu estava acompanhada de uma corretora sexy e poderosa de tailleur preto, cabelo armado e disposta a tudo, vendo um galpão abandonado pra me mudar com uma trupe de anormais tarados que me acompanhava pra cima e pra baixo e, quando fui verificar um dos quartos, sou agraciada com a visão daquela mulher nua e amarrada numa cama de ferro. Acho que ela havia participado de alguma orgia S&M e, quando acabou, esqueceram de soltá-la. Provavelmente não pôde gritar porque estava deliciosamente amordaçada com uma g-string de oncinha. Detalhes eu não sei, porque seu passado não me interessa. Parem de perguntar.

Então como eu estava falando, achei aquela visão extremamente excitante e resolvi catar a corretora na frente da mulher amarrada. No meio daquele tailleur que parecia que tinha 467 botões, 667 mangas, 49 braços e 4 vezes isso de dedos, achei que a enroladinha podia ajudar, então tirei sua mordaça pra que ela fizesse alguma coisa com a língua. Ela pediu que soltasse uma das suas mãos porque fazia 3 semanas que uma coceira no nariz a estava torturando e eu respondi nananinanana, que pra sair do casulo tinha que me provar que sabia ser borboleta. Então usando somente os cílios e o lábio inferior (porque o superior estava dormente) ela abriu minhas pernas.

A essa altura eu já tinha pedido pra corretora ir até o seu real estate office buscar um contrato, uma caneta, um pote de manteiga e umas bolinhas de ping pong. Enquanto ela não chegava, Anne Carole e eu escolhíamos os papéis para encenarmos nossa linda história de amor.

Por alguns anos eu fui o sequestrador e ela a vítima com síndrome de estocolmo. Quando cansamos, eu me tornei uma paciente em reabilitação fisioterapêutica e ela, meu médico. Como ela continuava nessas de doutorzinho mas eu tava cansada de usar aparelhos ortopédicos, eu virei a sufragista em greve de fome enquanto ela era o autoritário médico do sanatório, me enlouquecendo em sucessivas sessões de forced feeding. Tive que parar porque estava engordando.

Tio e tia. Padre e sacristão. Irmão e irmã. Irmã e irmã. Sargento e cabo. Pink e cérebro. Foram inúmeros papéis até chegar ao que somos hoje. Já havia me esquecido de tão doce época na minha vida até que um filme trouxe todo esse turbilhão de emoções de volta a tona.

Mango Kiss.

Mango Kiss conta a história de Lou e Sassy. Eram melhores amigas até que resolveram namorar (ai, que óbvio). Mas não simplesmente namorar. Naquela época em Sfrancisco todo mundo estava curtindo uma de namoro com papéis. Então Lou, apaixonada, disse que Sassy podia escolher o que quisesse, que ela seria quem ela quisesse. Sassy entào disse que queria ser criança. E assim se tornaram Princesa Sassafras e Daddy Lou.

O filme não é lá essas coisas, como todo o filme lésbico. As atrizes não são muito boas e tem alguns momentos extremos de VPP (conhecido como vergonha pela pessoa, ou vergonha empática). Mas se você só ouvir tem alguns momentos de lucidez no texto.

Mas vamos aos valores. Este filme aborda a relação das lésbicas de forma bem sexualizada, o que é uma raridade nesse tipo de cinema. Coisinhas entre mulheres são sempre tratadas com muita poesia, romantismo e respeito, saco, uma hora enche esse excesso de viadagem. A gente também precisa de um pouco de baixaria pra dar uma animada de vez em quando. Não que esse filme não tenha a boa e velha cena de amor em que você quase consegue ver o Kenny G tocando sax atrás da porta, mas é que pelo menos não é a base do filme. O filme se baseia em relações sexuais, sadomasoquistas, dominadoras e fetichistas entre mulheres.

Além disso, um bom motivo pra ver o filme é a atriz, Michelle Wolff, lésbica assumida e que costuma fazer infomerciais de aparelhos de ginástica na TV americana. Ela é bem canastrona, mas merecia um Oscar e um boquete quando aparece vestida de capitão do navio, dando ordens para quem aparece pela frente.

Mais uma vez, me lembrou Anne Carole. Com uma roupa de Capitão Gancho. Um tapa-Olho. Um papagaio no ombro dizendo as palavras mais sujas e gostosas que já ouvi. E um vibrador no lugar da mão direita. Hm, sem falar da perna de pau. Bons tempos aqueles...

E LEMBREM-SE GAROTAS: ESCOLHA BEM OS SEUS PAPÉIS E TRANSFORME SUA VIDA NUM FILME. PORNÔ.

Thursday, August 24, 2006

Na biblioteca com

AVA GINA FONDA

lésbica crítica.


É, leitoras, Ava Gina já usou muita gola roulê nessa vida. Já discuti Rimbaud no Guion, Barthes no Bar do Beto. Depois, mais madura e com mais dinheiro, Simone e Sartre no Espaço Unibanco, Paul Auster no Ritz. Cheguei a discutir Blavatsky, mas foi dentro de um consultório de psicologia, bons tempos aqueles onde eu tinha longas listas de motivos pra me deprimir e achava bonito...

Eu fui uma lenda no campus da Letras da UFRGS. Minhas obras “O Diálogo em Eu Sozinha”, sobre a obra de Marina Colasanti, ficou em exposição no xerox da faculdade por meses, e foi tomada como referência para toda uma geração de estudantes. Há anos ninguém tirava 10 num trabalho de Teoria da Literatura. Já minha monografia sobre Rigoberta Menchu chamada “A literatura analfabeta” foi incorporada ao acervo da biblioteca e me rendeu um 10 e o telefone interessado da professora. Os títulos previam meu futuro na publicidade, mas os conteúdos são a prova cabal da minha profunda formação intelectual. Na mesma época, um garoto da química me mostrava seu pau pela porta entreaberta do banheiro cada vez que eu ficava na porta da sala de latim esperando o tempo passar. Eu transava nos matos do campus com um garoto da Educação Física e com uma garota da Matemática, alternadamente. E assim nasceu minha consciência.

Mas hoje meu cerebrozinho não aguenta mais tanta profundidade e eu também tenho dificuldades de ler com um vibrador ligado e Anne Carole me sacudindo, me dá um pouco de tontura.

Então minhas leituras andam predominantemente mais leves. Não é que eu tenha me entregado completamente, semana passada terminei de ler Fury. Mas entre um Salman Rushdie e um Ian McEwan eu leio uns 10 romances policiais baratos.

Depois de esgotar as Patrícias (Highsmith, Cornwell, até a Mello), passei por Fred Vargas, Ruth Rendell e uns meio genéricos que nem lembro o nome.

Até que um dia tava numa livraria e li uma contracapa que dizia:

“Dinah Shore weekend turns deadly... And Lillian Byrd is in the middle of it!”

Gente.

Pra quem não sabe o que é o Dinah Shore Weekend, é um torneio de golf feminino perto de Palm Springs que reúne a nata da lesbiandade mundial em uma série de festas “muito loucas”, entre um buraco e outro.

Eu achava que o fato de reunir cerca de 500 mil mulheres fãs de golfe num trecho de deserto já era mortal o suficiente. Como o Dinah poderia se tornar ainda mais deadly? E quem diabos é Lillian Byrd?

Só por causa desses fatos intrigantes comprei dois livros da série Lillian Byrd Mysteries e me pus a ler.

A Lillian Byrd é uma jornalista que investiga crimes, basicamente. Mas meio que naturalmente a gente descobre que ela tem namorada, ou melhor, ex-namorada e é resolvidamente gay. As histórias são honestas, quase bobinhas, e têm umas dinâmicas que só poderiam acontecer com uma personagem mulher que escolhe.

Tem a ex a quem ela sempre recorre num momento de carência ou aperto, prolongando indefinidamente o final de uma relação. Já ouviram algo parecido?

Tem a psicossapa apaixonada que persegue a heroína, manda flores, passa a noite parada ao lado do interfone, escreve cartas apaixonadas e assustadoras ao mesmo tempo, sabe? Claro que sabe.

Que mais? Tem a dona do bar gay local que tem o cabelo descolorido, usa bota carrapeta, calça justa pierre cardin, blusa de lycra verde e um medalhão no pescoço. Parece familiar? Sim, amiga, praticamente da família.

Tem até uma cena em que a Lillian está numa festa e começa a reparar que várias das presentes têm a mão esquerda mais branca que o resto do corpo. É quando ela descobre que está numa festa de GOLFISTAS! É, tem coisas que só uma detetive lésbica pode descobrir...

Gente, é praticamente imperdível. Além de ser decentemente escrito pela autora Elizabeth Sims, com algumas pitadas de feminismo, política e bastante humor.

Enfim, a velha e íntima relação entre as dykes e as histórias de detetive continua bem obrigada, mas numa versão menos reprimida e mais bem-humorada, representada pela geração Lillian Byrd.

Mas uma dúvida persiste: o que acontece com as mulheres que escolhem que têm essa tara por histórias de detetive ou personagens que desvendam mistérios? Será inveja da pistola? Não sei por que, Anne Carole tem um pistolão e não faz mistério nenhum, muito pelo contrário, me desvenda todinha.

E LEMBREM-SE GAROTAS: FOI A NILA BRANCO, NA BIBLIOTECA, COM UM VIBRADOR.

Thursday, August 17, 2006




Ava Gina tava em casa ontem, meio com febre, porque semi-deusas também sofrem disso as vezes, sabe, desgasta, enfim.

Jogada no sofá com uma lingerie confortavel, óleo no corpo e lambendo um pirulito, eu disse à minha cortesã sem nenhuma moral:

Anne Carole, entretenha a parte de baixo do meu corpo, que a de cima já está vendo TV.

Obviamente ela me obedeceu, aliás, ela me obedece como ninguém, principalmente quando eu peço que mande em mim. Já eu não sou tão boa nisso, portanto às vezes ela tem que queimar meu peito com o cigarro pra eu aprender. Ou então amarrar meus mamilos, mas disso eu gosto.

Mas que assunto, não é? Se eu não parar vou molhar a cadeira do trabalho de novo...

Bom, sobre ontem a noite, eu toda oleosa vendo TV e Anne Carole agachada ali na frente, eu até queria mudar de canal mas ela estava usando as pilhas e fui obrigada a assistir ao que tava passando mesmo.

America’s Next Top Model.

Não vou nem comentar o show de interpretação da Tyra Banks tentando fazer drama e suspense na hora de apresentar a vencedora do programa. Não vou nem comentar o papel patético do júri tentando fazer críticas engraçadas às modelos imitando uma época em que o que faz o povo rir é a absoluta falta de respeito com qualquer outro ser humano. Quanto mais você humilha a outra pessoa, mais a audiência sobe. É mais ou menos como com a Anne Carole. Quanto mais se humilha, mais a coisa sobe. Mas a coisa, neste caso, não se chama audiência. Se chama Pepinão ou Rolinha, depende de onde está apontando.

Onde eu estava? Ah, sim, no sofá da sala lambendo um pirulito.

Não vou nem comentar o nível intelectual das conversas entre as modelos, porque isso seria muito óbvio. Não vou nem comentar a cara de decepção e glória que elas faziam com a classificação ou desclassificação do programa. E achando que são totalmente diferentes das misses, aquela coisa kitsch...

Por outro lado, não vou nem comentar que a Twiggy estava no júri. E eu alternava ondas de felicidade quando pensava em quem ela é e em como foi linda, e ondas de tristeza em pensar que ela estava participando daquele espetáculo degradante de nudez humana sem ao menos tirar as roupas. O problema desses programas, queridas, é que eles falam da gente. É uma grande candid camera que a gente pensa que não está participando. Prefiro outros tipos de programa.

Mas falando em ondas, as de felicidade e tristeza foram substituídas por ondas de prazer graças à combinação mística de Anne Carole e seu braço de ferro, pilhas, cinto, pirulito, óleo de amêndoas, cenas do In the Cut e Kim.

Esta é Kim, uma das concorrentes a America’s Next Top Model.

Provando que o mundo está mudando, mesmo que ligeiramente, e que dykes are the new fags. Minha mãe tinha razão, devemos estar na moda.

Espero que ela não se classifique, fique sem dinheiro e seja obrigada a aceitar um emprego degradante e sujo na minha alcova.

E LEMBREM-SE GAROTAS: se ela te ama e quer casar com você, corta!

Sunday, August 13, 2006

MANIFESTO DA MULHER QUE TEM ORGULHO DO QUE ESCOLHE

Eu sou uma mulher que escolhe. Gay. Lésbica. Homossexual. Entre outras coisas.

Isso não me define por completo. O que eu visto. Aonde eu vou. Meu temperamento. Nem ao menos o tamanho das minhas unhas.

Mas isso define um dos meus estados.

Se eu gosto de usar lenço no cabelo, eu uso lenço no cabelo. Na rua. No trabalho. Sei lá, onde eu tiver que ir no dia em que acordei com essa vontade. Eu não ponho uma tiara porque é parecido com o que eu gosto, mas agride menos as pessoas.

Eu uso lenço no cabelo.

Outro dia eu fui no Farol Madalena e me diverti muito. Não achei ninguém feio. Nem bonito. Achei que a grande maioria das pessoas estava feliz. Matando a vontade de ir num bar onde pudesse ficar a vontade, em que as pessoas tivessem mais ou menos o mesmo objetivo, para tomar uma cerveja, dançar, ouvir uma música que gostasse, etc. Critic free.

Daí eu fiquei pensando: eu vivo indo a bares lésbicos pelo mundo afora e tem de tudo, de todos, de todos os jeitos, para todos os dias da semana e com todos os tipos de roupas e idades diferentes.

No Brasil não. Tem o Farol, o Bardagrá, o Vermont de um lado e quinhentas outras mulheres que escolhem do outro dizendo que preferem lugares mix e negando qualquer ambiente exclusivamente lésbico.

Por que?

Por que os ambientes lésbicos disponíveis são o Farol, o Vermont, o Bardagrá, a música é ruim e elas não gostam do Itaim?

Tudo bem.

Mas então por que não existe um ambiente lésbico do “nível” delas? (Reparem nas haspas, elas provavelmente são as coisas mais importante desse texto). Se não existe, por que não existe? Por que qualquer ambiente, quando se torna exclusivamente lésbico, acaba saindo automaticamente do “nível”? Por que o bom é surpreender e ouvir que você nem parece lésbica? Por que?

Acho que no Brasil não existe identidade lésbica. No Brasil ninguém tem muito orgulho de ser lésbica.

Tem um filme chamado Go Fish, com roteiro da Guinevere Turner (que, aliás, vai ser a próxima musa do blog, daqui a uns dias vou introduzi-la aqui na frente de todo mundo) e direção da Rose Troche, que começa com um grupo de pessoas fazendo uma lista de mulheres famosas que eles acham que são gays. Não lembro exatamente do diálogo, o filme é de 94, mas alguém questiona qual a utilidade daquela lista tão especulatória, e a personagem responde que é porque a história da homossexualidade feminina nunca passou de pura especulação.

Se vocês forem contar entre as lésbicas públicas do Brasil, a única que tem uma identidade coerente e com orgulho é a Vange Leonel. Conseguem lembrar de mais alguma? Duvido.

Ou você não pensa muito politicamente nisso, ou você não quer se identificar de jeito nenhum com o Farol Madalena. Se você é feminina, upperclass, modernette, você não quer se identificar com o Farol Madalena. Mas não existe uma contrapartida para isso. Não existe o lugar lésbico upperclass feminino modernette. Não existe público para um lugar lésbico feminino upperclass modernette porque não existe mulher feminina modernette upperclass que tenha orgulho de ter escolhido ser lésbica.

A moda é ser uma lésbica discreta, que não incomode e que faça uma boa figura entre os héteros.

Não quero generalizar, embora eu possa dizer o que eu quiser aqui. Mas acho que isso é praticamente uma forma de submissão.

Eu acho que é preciso descer do pedestal imaginário e parar de fingir que só gosta de ambientes mix. Ok, não há nada de errado com ambientes mix, héteros, qualquer coisa.

Mas o que há de errado com lugares exclusivamente lésbicos?

Como forma de protesto, vou terminar meu miojo e vou pro Bardagrá.

Mulheres que escolhem, tenham orgulho das suas escolhas e das outras escolhas de todas as outras mulheres.

Menos as da Ana Carolina.